Aquecimento global pode provocar extinção de anfíbios da Mata Atlântica e êxodo de espécies, aponta pesquisa da Unicamp
26/01/2026
(Foto: Reprodução) Aquecimento global pode provocar extinção de anfíbios da Mata Atlântica, aponta estudo
O avanço do aquecimento global pode provocar a extinção de anfíbios da Mata Atlântica nos próximos 50 anos. É o que aponta uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que analisou dados de 6.732 espécies de plantas, vertebrados e invertebrados do bioma, um dos mais biodiversos do planeta.
🐸 O estudo indica que sapos, rãs e pererecas que vivem em áreas de altitude elevada estão entre os grupos mais ameaçados. Esses animais têm baixa capacidade de dispersão e dependem fortemente da temperatura do ambiente.
A pesquisa 100% brasileira deu origem a um artigo publicado em 2025 na revista científica Global Change Biology e foi conduzida pelo biólogo Cleber Chaves, em seu pós-doutorado no Instituto de Biologia da Unicamp, sob supervisão da professora Clarisse Palma-Silva.
Sapos da regiões altas da Mata Atlântica estão entre os mais aemaçados pelo aumento de temperatura
Cléber Chaves/Marcus Thadeu Teixeira
O que a pesquisa analisou
A pesquisa mostra que a sobrevivência de plantas e animais está diretamente ligada à capacidade de suportar variações de temperatura e à habilidade de se dispersar para áreas mais amenas à medida que o clima esquenta.
O estudo cruzou dois grandes conjuntos de informações reunidos ao longo de décadas por cientistas do Brasil e do mundo:
dados de ocorrência, que mostram onde cada espécie vive (6.732 espécies analisadas);
dados fisiológicos de tolerância térmica, que indicam quanto frio e calor cada organismo consegue suportar (153 espécies analisadas).
🔎 Os dados de ocorrência são mais fáceis de obter, pois baseiam-se em registros de onde a planta ou animal foi visto, por isso o número de espécies analisadas é maior. Já os dados fisiológicos exigem testes em laboratório e por serem dados mais difíceis de coletar têm amostragem menor, mas permitem uma previsão mais precisa sobre a sobrevivência ao calor.
📈Essas informações foram combinadas com projeções climáticas para o período entre 2060 e 2080, quando a temperatura média da Mata Atlântica pode subir até 3 °C segundo a literatura científica, mesmo em cenários considerados otimistas de controle das emissões de gases do efeito estufa.
"Mesmo no cenário mais otimista, os resultados são alarmantes", diz a orientadora Clarisse Pamla-Silva.
🌡️Êxodo de espécies com o avanço do calor
Com esse aumento de temperatura, os pesquisadores identificaram a tendência de um êxodo de espécies, especialmente em regiões mais quentes e baixas do bioma.
Áreas do oeste do estado de São Paulo, como o platô do rio Paraná, estão entre as mais propensas a perder espécies nas próximas décadas.
Em busca de temperaturas mais amenas, plantas e animais tendem a migrar para regiões de maior altitude, onde o clima ainda permite a sobrevivência. Entre os destinos projetados estão:
Serra do Mar, ao longo da costa de SP e RJ;
Serra da Mantiqueira, que passa por SP, MG e parte do RJ;
Serra do Espinhaço, entre MG e BA.
Segundo os pesquisadores, as espécies com distribuição mais restrita — especialmente aquelas que vivem no topo das montanhas — precisariam subir cerca de 500 metros em altitude para encontrar condições ambientais adequadas à sobrevivência diante do aumento das temperaturas provocado pelas mudanças climáticas.
Esse deslocamento seria uma tentativa de alcançar áreas mais frias, já que a elevação funciona como um refúgio natural frente ao aquecimento. Na prática, porém, essa adaptação exige muito mais do que apenas “subir a montanha”.
O ganho de altitude equivale, em média, a um deslocamento horizontal de aproximadamente 30 quilômetros até um ambiente climaticamente favorável. Para espécies com baixa capacidade de locomoção, como pequenos anfíbios, percorrer essa distância em paisagens fragmentadas torna a migração praticamente inviável, aumentando o risco de extinção local.
Por que os anfíbios são os mais vulneráveis
Anfíbios de regiões altas da Mata Atlântica são os mais ameaçados pelo aquecimento global
Marcus Thadeu Teixeira
🐸Os anfíbios são animais ectotérmicos, ou seja, não conseguem regular a própria temperatura corporal. Isso os torna altamente sensíveis ao aumento do calor.
🏔️Além disso, segundo o estudo, muitas dessas espécies vivem restritas a maiores altitudes, em pequenos trechos de montanha como a Serra do Espinhaço. Elas são mais ameaçadas por já viverem próximas ao limite de temperatura que conseguem suportar.
“Então, a maioria desses organismos que são tão restritos, a gente viu que são anfíbios, que são sapos e pererecas de topo de montanha, principalmente”, afirma Cleber Chaves.
Para sobreviver ao aquecimento previsto, outras espécies precisariam subir cerca de 500 metros em altitude ou percorrer até 30 quilômetros em busca de um ambiente mais frio — um deslocamento considerado inviável para animais tão pequenos.
Além disso, em vários casos, o estudo indica que não há áreas próximas para onde esses anfíbios consigam migrar, o que aumenta significativamente o risco de desaparecimento definitivo.
Números da extinção
O estudo não apresenta um número absoluto fixo de espécies que podem ser extintas em toda a Mata Atlântica, mas fornece proporções e taxas de extinção baseadas no conjunto de espécies analisadas.
🔎As projeções feitas pelos pesquisadores variam conforme o cenário de aquecimento global e o critério usado para definir os limites de sobrevivência das espécies (local onde vivem ou quanto calor conseguem suportar, conforme explicado anteriormente).
Ao analisar os locais onde vivem as 6.732 espécies estudadas, os pesquisadores estimam que, em um cenário moderado de aquecimento global, plantas e animais podem perder, em média, 13% de sua área de distribuição. Já em um cenário mais extremo, essa perda pode chegar a 27%, mais de um quarto da área onde vivem atualmente.
Ao analisar as 153 espécies das quais se têm informação fisiológica sobre quanto calor conseguem suportar, as projeções indicam, taxas de extinção local de cerca de 8% até o fim do século, mesmo em cenários considerados mais controlados.
Quando a temperatura máxima projetada ultrapassa o limite fisiológico desses animais, ocorre a chamada "extinção local", quando a espécie deixa de existir naquele território específico.
No entanto, como muitas dessas espécies são microendêmicas, ou seja, só existem neste bioma da Mata Atlântica, a extinção local significa extinção total da espécie.
“A grande maioria das espécies da Mata Atlântica é muito microendêmica. Isso aumenta muito o risco de extinção diante das mudanças climáticas", explica Clarisse Palma-Silva.
Espécies mais resilientes
O estudo mostra que espécies com ampla distribuição geográfica tendem a ser mais resilientes às mudanças climáticas.
É o caso de algumas aves como tucanos, grandes mamíferos como antas e plantas que toleram uma faixa maior de temperatura e conseguem se deslocar com mais facilidade.
Riscos da migração
O deslocamento em massa de espécies, no entanto, não resolve todos os problemas. O estudo alerta que a chegada de novos organismos em regiões mais frias pode aumentar a competição por recursos, a predação e os conflitos ecológicos, colocando em risco espécies que já viviam nesses locais.
Segundo os pesquisadores, esse efeito em cadeia pode agravar ainda mais a perda de biodiversidade, mesmo em áreas que inicialmente funcionariam como refúgio climático.
O que pode ser feito
Diante desse cenário, o estudo destaca a urgência da criação de corredores ecológicos, especialmente em regiões de maior altitude da Mata Atlântica. Essas áreas conectariam fragmentos de floresta, permitindo que plantas e animais se desloquem de forma mais segura diante do avanço do aquecimento global.
A pesquisa também ressalta que estratégias de conservação precisam levar em conta dois fatores-chave: a tolerância térmica das espécies e sua capacidade de dispersão. Sem isso, áreas protegidas isoladas podem não ser suficientes para evitar extinções.
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