'Bugonia' surpreende com indicação a melhor filme no Oscar 2026 — mas não deveria; g1 já viu
10/03/2026
(Foto: Reprodução) A indicação de "Bugonia" a melhor filme no Oscar 2026 pegou muita gente de surpresa – mas não deveria.
Esta é, afinal, a quarta e melhor edição da parceria mais querida de Hollywood nos últimos anos, entre o diretor Yorgos Lanthimos e a atriz Emma Stone.
A dupla já tinha realizado o excelente "A favorita" (2018) e o superestimado "Pobres criaturas" (2023) – ambos com múltiplas indicações ao Oscar.
Lançado pouco depois do praticamente ignorado por crítica e público "Tipos de gentileza" (2024), com o qual tem em comum a presença de Jesse Plemons, não é de espantar que "Bugonia" também tenha sido recebido com certa incredulidade.
Após uma estreia sem muito alarde em novembro de 2025 no Brasil, arrecadou menos de US$ 300 mil no país, de um total de US$ 42 milhões ao redor do planeta – uma bilheteria ainda modesta quando comparada aos US$ 117 milhões do filme de 2023, mas uma evolução dos US$ 16 milhões mundiais do de 2024.
Assista ao trailer de 'Bugonia'
Com uma história ainda mais esquisita que as parcerias anteriores, a obra só entrou mesmo no radar dos especialistas de premiação como um possível indicado à categoria principal da Academia americana uma semana antes do anúncio.
No fim, conseguiu quatro indicações – entre elas, a quinta para uma atuação de Stone, duas vezes vencedora.
Mais estranho que a premissa, no entanto, é a aparente surpresa de que um mestre do bizarro faça um de seus melhores trabalhos exatamente ao pesar a mão na bizarrice.
Aidan Delbis e Jesse Plemons em cena de 'Bugonia'
Divulgação
Entre a paranoia e o absurdo
Com uma produção modesta, o que talvez tenha contribuído para a confusão dos espectadores com um novo "Tipos de gentileza", "Bugonia" conta a história de dois primos do interior dos Estados Unidos (Plemons e a revelação Aidan Delbis) que sequestram a CEO (Stone) de uma gigante farmacêutica.
Intoxicados pela mentalidade típica de teóricos da conspiração, eles suspeitam que ela é a líder de uma invasão alienígena secreta – e acreditam serem os melhores representantes de toda a humanidade em uma negociação com os visitantes.
O roteiro indicado ao Oscar de Will Tracy ("O menu"), adaptação do sul-coreano "Jigureul Jikyeora!" (2003), mantém o equilíbrio entre a certeza maníaca da dupla e o absurdo da premissa – que ganha dimensões mais urgentes com a ascensão da extrema direita conspiratória nos Estados Unidos (e, não conta para ninguém, no resto do mundo).
Emma Stone, Aidan Delbis e Jesse Plemons em cena de 'Bugonia'
Divulgação
A moeda
Não há "Bugonia" sem Stone. Aos 37 anos, a atriz domina o ambiente em todas as suas cenas, o que reforça o contraste de poderes entre uma CEO acorrentada e dois idiotas com as chaves do seu cativeiro.
A frieza calculista de sua atuação é a principal responsável por manter aquele fiapo de suspeita no espectador, por mais que todos os indícios apontem para os primos como os mais não confiáveis dos narradores.
Do outro lado da moeda está a genialidade de Lanthimos, que joga seguro ao se esconder na força de sua protagonista franzina, enquanto brinca com perspectivas de câmera e com a tensão da situação, até enfim mostrar sua mão e dobrar a aposta na bizarrice do final – um desfecho daqueles que mudam uma avaliação de um "mediano" para um "memorável".
Cartela resenha crítica g1
Arte/g1