Ceará lidera assassinatos puxado por guerra de facções e aumento de feminicídios

  • 01/02/2026
(Foto: Reprodução)
Ceará é líder em assassinatos no Brasil em 2025 O Ceará lidera o ranking nacional de assassinatos por 100 mil habitantes em 2025, segundo dados divulgados no último dia 20 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. O levantamento, feito pelo g1, considera crimes como homicídios, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte. No Ceará, a média é de 32,6 mortes violentas para 100 mil habitantes - mais que o dobro da taxa do Brasil, que é de 15,97%. O indicador é considerado preocupante por especialistas e vai na contramão da redução nacional, de 11% no comparativo com 2024. (veja no infográfico abaixo) ☠️Ao todo, foram registrados 3.022 assassinatos no Ceará em 2025, dos quais 96,9% correspondem a homicídios dolosos — quando há intenção de matar. Em todo o país foram 34.086 mortes violentas e a taxa nacional por 100 mil habitantes é de 15,97. Clique e siga o canal do g1 Ceará no WhatsApp ♀️Outro dado que chama atenção é o crescimento dos feminicídios. O estado registrou um aumento de 14,63%, com um total de 47 mulheres mortas no ano passado. Guerra de facções desafia as forças de segurança do Ceará. Thiago Gadelha/SVM De acordo com pesquisadores ouvidos pelo g1, a alta taxa de mortes violentas no Ceará é resultado da sobreposição de diferentes dinâmicas de violência, com destaque para os feminicídios e os assassinatos associados à guerra entre facções criminosas. (entenda os motivos abaixo) O Governo do Estado não divulga a estatística detalhada com as mortes ligadas à disputas entre criminosos, mas em entrevista ao g1, o coordenador da Coordenadoria Integrada e Planejamento Operacional (Copol) da Secretaria da Segurança Pública do Ceará, Harley Filho, afirma que "a ampla maioria dos homicídios no estado do Ceará estão vinculados ao conflito entre grupos criminosos rivais". A fala de Harley vai ao encontro com o que o governador Elmano de Freitas (PT) declarou em entrevista à TV Verdes Mares, afiliada da Globo no Ceará, em julho de 2025. Segundo ele, 90% das mortes violentas no Estado eram resultado de conflitos entre grupos criminosos que disputam território. Brasil tem queda de assassinatos pelo 5º ano seguido, aponta Ministério da Justiça Confrontos entre 7 facções causam 90% dos homicídios no Ceará, diz Elmano Vilarejo do Ceará vira 'território-fantasma' após expulsão de moradores por facções Cidade mais violenta do Brasil: Maranguape, no Ceará Com maior taxa de homicídios do país, Maranguape recebe operação policial Violência contra as mulheres O número de feminicídios registrado no Ceará em 2025 foi o maior desde 2018, ano em que este tipo de crime passou a ser contabilizado nas estatísticas da Secretaria da Segurança Pública do Ceará. Segundo Artur Pires, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará (UFC), o alto número de feminicídios no estado está diretamente relacionado ao machismo. "Os feminicídios têm relação com a nossa histórica estrutura machista no Brasil e no Ceará. Uma estrutura na qual, sobretudo, os homicídios ocorrem nos lares, nas famílias. São eventos nos quais os companheiros têm uma ideia de posse sobre aquele corpo. Isso aqui no Ceará é muito forte ainda, sobretudo pelo histórico nosso de patriarcalismo", diz o pesquisador. 🔎 A tipificação de feminicídio foi criada em 2015. O crime ocorre quando uma mulher é assassinada pelo fato de ser mulher. Em janeiro de 2025 três mulheres foram assassinadas vítimas de feminicídio no Ceará. Em junho do mesmo ano foram 11, o maior número do ano para um único mês. Um destes crimes vitimou uma jovem de 18 anos de Trairi, que teve a cabeça decapitada por um homem que a importunava. A pesquisadora Fernanda Naiara, também do Laboratório de Estudos da Violência (LEV/UFC), destaca que os dados sobre feminicídio indicam que, na maioria dos casos, os crimes são cometidos por homens que mantinham ou mantêm vínculos afetivos com as vítimas, como namorados, ex-namorados, maridos ou ex-maridos. Segundo ela, trata-se de um crime marcado pela proximidade e por relações de poder, além de apresentar, em muitos casos, elementos de crueldade que atingem de forma específica os corpos das mulheres. (leia mais abaixo) Infográfico mostra os indicadores de violência no CE comparados ao Brasil Arte/g1 Guerra entre facções Conforme Artur Pires, o elevado número de assassinatos está diretamente relacionado aos conflitos entre facções criminosas, como Guardiões do Estado (GDE), Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP) e Massa ou Tudo Neutro (TDN), que disputam o controle de bairros, comunidades e rotas do tráfico. Artur explica que alguns fatores aumentaram a disputa entre as facções, como: O fim da Guardiões do Estado (GDE) no 2° semestre do ano. A facção de origem cearense foi praticamente dissolvida e perdeu lugar para outro grupo, o Terceiro Comando Puro (TCP); O TCP é uma facção de origem carioca. A chegada do bando no CE mexeu com o controle do Comando Vermelho (CV) em algumas áreas, e os dois passaram a duelar; Apesar disso, o CV conseguiu fechar 2025 com certa "hegemonia" na Região Metropolitana e hoje encontra pouca resistência de grupos rivais; Um desses grupos rivais é a Massa ou Tudo Neutro (TDN), que ainda tem uma 'ilha' de resistência na Região Metropolitana de Fortaleza. Um dos locais marcados por briga de facção em 2025 foi o bairro Vicente Pinzón. Reprodução Ainda segundo Artur, a violência no Estado aumenta à medida que os grupos criminosos buscam diversificar sua atuação. Antes concentrados no tráfico de drogas, agora as facções estão expandindo para outras áreas consideradas 'lucrativas', como extorsão de comerciantes e monopólio de serviços básicos, como água, gás de cozinha e internet. Até a venda de água de coco e outros produtos na Avenida Beira Mar, um dos principais pontos turísticos de Fortaleza, foi comprometida pela atuação do Comando Vermelho (CV), que impôs, segundo os comerciantes, cobrança de taxas para o funcionamento dos estabelecimentos. Famílias do distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, a 167 quilômetros de Fortaleza, foram expulsas por criminosos em meio a guerra de facções. Meu País Uiraponga/ Reprodução Também em 2025, o Ceará registrou a expulsão de centenas de famílias de suas próprias casas por causa da 'guerra' entre criminosos. Dois casos se destacaram: Uma vila de casas na cidade de Pacatuba, Região Metropolitana de Fortaleza, que tornou-se um “território fantasma” após cerca de 30 famílias serem expulsas da área por facções criminosas; E o distrito de Uiraponga, na cidade de Morada Nova, que ficou completamente vazio após a violenta disputa entre membros de facções na região. Grande Fortaleza concentra mais da metade das mortes Cidades com mais mortes violentas no Ceará em 2025 Os dados mostram que a Grande Fortaleza concentrou 1.645 homicídios em 2025, o que representa aproximadamente 54% de todas as mortes violentas registradas no Ceará. A capital lidera o ranking estadual, com 742 homicídios, seguida por Caucaia e Maracanaú. (veja ranking acima) Outros municípios da Região Metropolitana também aparecem com números expressivos, como Maranguape e Pacatuba (63), além de Trairi (35), Cascavel (34), Horizonte (33) e Pacajus (31). A expansão dos grupos criminosos para outras cidades não é à toa. Nos novos locais, eles tentam estabelecer poder e domínio sobre as comunidades, além de ter acesso a melhores armas e drogas. Harley Filho admite que as facções "brigam por território" no Ceará, mas o integrante do governo do Estado é categórico ao dizer que "nenhum grupo criminoso domina territórios no Ceará". "Hoje, uma viatura com três policiais entra em qualquer local do estado do Ceará", garantiu o coordenador. Violência x futuro O pesquisador Artur Pires avalia que a dinâmica da violência na região pode sofrer alterações nos próximos anos. Para ele, a organização das facções nos territórios influencia diretamente os índices de homicídio. Segundo ele, quando um grupo criminoso consegue se impor sobre os demais, os confrontos armados tendem a diminuir. "Como o Comando Vermelho conseguiu uma certa hegemonia na Região Metropolitana de Fortaleza, há uma tendência em 2026 de baixa nesses números de homicídio. Isso já foi verificado em São Paulo quando o PCC, no começo dos anos 2000, conseguiu a hegemonia no Estado. Na época, as taxas de homicídio caíram drasticamente em São Paulo e se mantém baixas até hoje", reflete Artur. O que preocupa o pesquisador, no entanto, é que a aparente "tranquilidade" e redução de assassinatos esperada para 2026 esteja mais relacionada à hegemonia do CV, que agora perde rivais, do que a atuação efetiva do Governo do Estado. Combate ao crime Procurada, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) do Governo do Ceará destacou por meio dos indicadores que, em relação a 2024, houve redução de 7,7% nos Crimes Violentos Letais e Intencionais (CVLI) no Estado. Na entrevista ao g1, o coordenador Harley Filho elencou ações práticas que já vêm sendo adotadas para combater as ações criminosas no Ceará: Combate à rede de contatos e articulação desses grupos criminosos: De acordo com a SSPDS, foram realizadas mais de 240 prisões interestaduais em 2025, focando em criminosos que tentam fugir do Ceará ou operar de outros estados. Combate financeiro: atuação direta contra a extorsão a provedores de internet, com a apreensão de 2.800 quilos de material irregular (cabos, etc.), gerando um prejuízo de R$ 3 milhões ao crime organizado. Investimento em equipamentos e profissionais com a entrega de 73 equipamentos de proteção à mulher/ aumento da frota da Patrulha Maria da Penha/inauguração de delegacias especializadas de homicídios na Região Metropolitana para acelerar as investigações. Retomada de territórios: foram 61 prisões ligadas a deslocamentos forçados, permitindo o retorno de moradores a distritos como Uiraponga (Morada Nova) e à Vila em Pacatuba. Remoção de pichações em ruas do Ceará: uso da mão de obra de detento para apagar símbolos de facções das comunidades de Fortaleza, Região Metropolitana, entre outras cidades. O coordenador acredita que a segurança pública precisa trabalhar em conjunto com outras áreas, como saúde, educação, lazer e moradia. Por isso, a SSPDS diz estar sempre em contato com pastas como a Secretaria da Proteção Social, Saúde e Mulheres. O Ceará lidera o ranking nacional de assassinatos por 100 mil habitantes em 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública José Leomar/SVM "Isso impacta positivamente na diminuição do crime local, seja uma poda de árvore, uma remoção de pichação, coleta regular de lixo. Quando você leva a estrutura do Estado para um local carente, você consegue, sim, obter dados positivos", considera. A longo prazo, a SSPDS espera aumentar a integração com forças de segurança de outros estados e municípios, dar celeridade às investigações e investir nos profissionais de segurança e equipamentos de proteção à mulher. Para Harley, a chave de tudo é um "trabalho intersetorial", em que a Segurança não atua sozinha. "A gente não vai conseguir o ideal em um ano. Tem que ser construído, par a par, ano a ano (...) As coisas não se resolvem da noite para o dia, infelizmente. Mas eu acho que estamos no caminho certo. Eu tenho muita esperança que a gente vai resolver. Se eu não tivesse, não estaria nem aqui". Segundo ele, polícia cearense faz um trabalho de inteligência e de cooperação com equipes dos outros estados para "sufocar" o crime organizado. Segundo ele, apesar dos 2.883 homicídios ocorrido no ano passado na RMF, houve um aumento de 40% das prisões desses suspeitos. Cresceu também a taxa de apreensão de armas de fogo na Região Metropolitana, totalizando '1.592 armas de fogo retiradas de circulação'. De acordo com o coordenador, cidades como Caucaia, Maracanaú, Maranguape e Pacatuba receberam novas delegacias - o que, na análise do delegado, representa maior presença do Estado nos territórios. "As investigações estão mais céleres, estão sendo concluídas. Com relação à temática de descolamentos forçados e ataques a provedores de internet, eu digo que o Ceará deu um salto de qualidade, saiu na frente em relação aos demais estados". Ainda conforme Harley, 85 prisões foram realizadas desde 2025 contra envolvidos nos ataques a provedores de internet. Já sobre a expulsão de moradores de suas casas, o delegado disse que foram realizadas 61 prisões. Facções e a violência de gênero No Ceará, dos 3.022 assassinatos registrados no ano passado, 304 foram de mulheres. Desse total, 47 são considerados feminicídios, representando uma alta de 14,63% em relação à 2024. Segundo a pesquisadora Fernanda Naiara trata-se de um crime marcado pela proximidade e por relações de poder, além de apresentar, em muitos casos, elementos de crueldade que atingem de forma específica os corpos das mulheres. A forma como se mata também fala sobre esse tipo de crime e sobre esse tipo de violência, porque não é um tipo de morte que a gente vê de forma tão rotineira quando pensa nos homens, que também são as maiores vítimas de homicídios. Ao analisar áreas dominadas por grupos faccionados, a pesquisadora aponta que ainda não há evidências suficientes para afirmar que o risco de feminicídio seja maior nesses territórios. No entanto, ela destaca que a presença dessas organizações dificulta a chegada do Estado e da rede de proteção às mulheres. "No Ceará, a gente acompanha o aumento de prisões por feminicídio, mas, ao mesmo tempo, não acompanha a diminuição dos casos, o que indica que as políticas de proteção não estão conseguindo chegar a esses territórios", pondera Fernanda. Em 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma lei que aumentou as penas para quem comete feminicídios, que podem variar de 20 a 40 anos de prisão. Sobre o tema, o titular da Coordenadoria Integrada e Planejamento Operacional (Copol), Harley Filho, afirma que o cenário nacional é preocupante e que a investigação de feminicídios é uma das prioridades da polícia cearense: "Somente em relação aos equipamentos entregues pelo Governo do Estado, já são da ordem de 73 equipamentos, como Casa da Mulher Cearense, Salas Lilás, 50 viaturas da patrulha Maria da Penha. Outro dado importante é a medida protetiva de urgência online. É mais uma medida que faz com que as mulheres se empoderem, possam denunciar. Em 2025, foram 1.200 casos de medidas protetivas online requeridas". Rosto por trás dos números Clarissa Costa era enfermeira de neonatologia e trabalhava em hospitais públicos de Fortaleza Arquivo pessoal Uma das vítimas que engrossou as estatísticas de feminicídio no Ceará foi a enfermeira Clarissa Costa Gomes, de 31 anos. Ela foi assassinada com 34 golpes de facada pelo então namorado, Matheus Anthony Lima Martins Queiroz, de 26 anos. O crime foi em julho em Fortaleza e a família não se conforma com a brutalidade com que a vida da jovem foi interrompida. "A única coisa que eu pergunto a Deus é: por que dessa forma? Porque a gente sabe que vai perder um ente da gente. Logicamente, não é natural um pai enterrar a filha, sempre é o contrário. Mas eu poderia ter perdido ela de uma forma diferente, não de uma forma tão violenta, de uma pessoa que a gente, de uma certa forma, tinha uma confiança", lamentou Luciano Gomes, pai de Clarissa. "Uma pessoa que chegou com um sorriso na cara, que ludibriou toda a família e apunhalou a gente pelas costas. Ele não só apunhalou minha filha, ele apunhalou a família todinha. Ele matou a família todinha. Foi 34 facadas para cada familiar que ele espalhou", complementou. Clarissa era formada em enfermagem pela Universidade Federal do Ceará (UFC), e trabalhava como enfermeira em dois grandes hospitais públicos da capital cearense: o Hospital Geral de Fortaleza (HGF) e o Hospital Dr. César Cals. A morte dela foi lamentada também por Juliette Freire, vencedora do Big Brother Brasil 2021, que era amiga de Clarissa. Luciano disse que a morte brutal da filha tirou "o equiílibro da família". "Ela está fazendo falta de uma forma tão agressiva quanto foi a forma dela morrer. Se Deus me desse a oportunidade de trocar minha vida pelo lado dela, eu trocaria. Eu não pensaria duas vezes. ", lamentou o pai da enfermeira. O que é feminicídio? 🎧 Ouça episódio do podcast 'O Assunto' sobre a expansão de facções no Ceará: Brasil O Brasil também registrou queda nos assassinatos pelo quinto ano seguido: foram 34.086 casos em 2025, contra 38.374 em 2024. Segundo os números computados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve uma redução de 11%. Já são cinco anos consecutivos de redução nas mortes violentas, de 2021 a 2025, e uma queda acumulada de 25% desde 2020, primeiro ano da pandemia de Covid-19. O recorde registrado na série histórica é de 2017, com mais de 60 mil assassinatos. Depois desse pico, os números caíram em 2018 e 2019, e voltaram a subir em 2020. Desde então, só houve quedas. Assista aos vídeos mais vistos do G1 Veja os vídeos que estão em alta no g1

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/02/01/ceara-lidera-assassinatos-puxado-por-guerra-de-faccoes-e-aumento-de-feminicidios.ghtml


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