Comunidade ribeirinha muda trajetória e se torna aliada na proteção das tartarugas-da-Amazônia
12/03/2026
(Foto: Reprodução) Comunidade ribeirinha se torna aliada na proteção das tartarugas-da-Amazônia
Na comunidade Sacaí, o rio Branco é o protagonista — ele transporta os barcos, é a fonte de renda, de alimento e dita o estilo de vida dos 250 ribeirinhos que ali vivem. Localizada em uma região conhecida como Baixo Rio Branco, em Roraima, crianças, pescadores e lideranças da comunidade passaram a atuar como aliados na preservação de uma espécie que também precisa do rio para sobreviver: as tartarugas-da-Amazônia.
A transformação começou a partir das ações de educação ambiental do Projeto Quelônios da Amazônia (PQA), coordenado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que há 47 anos atua na proteção das áreas de desova da espécie na região. O Baixo Rio Branco tem 16 comunidades ribeirinhas.
Além do monitoramento dos ninhos e da soltura dos filhotes, o projeto investe em ações educativas dentro das próprias comunidades ribeirinhas, especialmente nas escolas. Em Sacaí, a iniciativa aproximou os moradores da conservação, transformou a relação antes marcada pela captura de quelônios e deu lugar a ações de proteção da espécie.
“O que a gente vê hoje é uma comunidade muito mais consciente do valor desses animais pro equilíbrio desse riozão”, explica o agricultor e pescador Josué Moreira, de 51 anos, presidente da associação comunitária de Sacaí.
🐢 Entenda: Quelônio é todo réptil de casco, o que inclui jabutis, tracajás e cágados. O maior entre os que vivem fora da água salgada é a tartaruga-da-Amazônia, que na fase adulta pode chegar a 1 metro de comprimento e pesar até 65 kg. Além disso, vivem até 100 anos.
Este ano, graças à atuação do projeto, 150 mil tartarugas-da-Amazônia devem nascer até o fim de março nas praias do Baixo Rio Branco. O número de ovos registrados é considerado um recorde para Roraima.
A fiscal ambiental do município de Caracaraí, Jéssica Góes, que atua em parceria com o Ibama no projeto destacou que o trabalho de educação ambiental ajudou a mudar a forma como os moradores enxergavam as tartarugas na comunidade.
"A comunidade desconhecia o trabalho do PQA e a importância das tartarugas. Então, quando a gente traz essas informações, eles começam a enxergar de outra forma. Além disso, procuram preservar e proteger a espécie. Eles mesmos disseminam esse conhecimento que adquiriram aqui para outras comunidades próximas. É uma corrente do bem para proteger as tartarugas", disse.
O projeto monitora ninhos em praias ao longo do Baixo Rio Branco — o acesso é feito apenas por horas navegando pelo rio. A iniciativa atua contra predadores e no combate à principal ameaça: o tráfico de tartarugas por criminosos conhecidos como "tartarugueiros".
Comunidade Sacaí, no Baixo Rio Branco, em Roraima
Caíque Rodrigues/g1 RR
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🌊 Comunidade na beira do rio
Casas em palafitas na comunidade Sacaí, no Baixo Rio Branco
Caíque Rodrigues/g1 RR
As casas em Sacaí são suspensas por palafitas de quase dois metros para a época de cheia do rio Branco. Não há ruas — as casas, todas de madeira, são alinhadas com o curso d'água. Não há carros nem motos, afinal, não tem ruas. Os moradores andam a pé, de bicicleta ou de canoas e barcos.
Para chegar a Sacaí, é necessário fazer uma viagem de barco que parte da sede do município de Caracaraí e dura cerca de 7 horas pelo rio.
A comunidade é formada principalmente por famílias que vivem da pesca e da agricultura voltada para o próprio sustento. Durante muito tempo, a captura de tartarugas e a coleta de ovos fizeram parte da cultura alimentar de muitas populações amazônicas. Mas nos últimos anos, essa realidade começou a mudar.
Josué Moreira, o presidente comunitário de Sacaí, afirma que o projeto do Ibama promoveu uma "mudança na mente" de todos ali. Ele explica que a comunidade, inclusive, deixou de ajudar os traficantes de tartaruga que tanto navegavam no rio Branco.
"Antes de conhecer o projeto, a comunidade era muito predatória. Hoje posso dizer que 99% das pessoas mudaram. Não tem mais aquela frequência de pescaria predatória de tartaruga como acontecia antes", conta, acrescentando que:
"Tartarugueiro aqui, inclusive, não é bem-vindo", frisou.
Agricultor e pescador Josué Moreira, de 51 anos, presidente da associação comunitária de Sacaí.
Caíque Rodrigues/g1 RR
🎒 Educação ambiental começa pelas crianças
Alunos de escola na comundiade ribeirinha Sacaí fazem apresentação na escola sobre tartarugas-da-Amazônia
Caíque Rodrigues/g1 RR
Os cuidados com as tartaruguinhas na comunidade começam com as pessoinhas! Grande parte dessa transformação começa com os estudantes. As equipes do projeto passaram a visitar regularmente a escola municipal Oscar Batista dos Santos, que atende alunos de diferentes idades em Sacaí.
Durante as atividades, os estudantes aprendem sobre o ciclo de vida das tartarugas, o papel ecológico da espécie e os riscos enfrentados pelos animais na natureza.
Moradora da comunidade e secretária da escola, Nericiana de Moura, de 38 anos, afirma que as atividades despertaram curiosidade entre os alunos. Com isso, o aprendizado ultrapassa a sala de aula. Segundo ela, as crianças aprendem sobre a importância de proteger os quelônios e levam essas informações para casa, onde compartilham o conhecimento com os pais.
“Grande parte da comunidade vive da pesca. Então, quando as crianças aprendem sobre isso na escola, elas também ajudam a conscientizar os adultos”, explicou.
Para incentivar o engajamento de crianças e adolescentes, o projeto também promoveu atividades com estudantes da comunidade. Um dos momentos mais marcantes foi um concurso realizado entre alunos. A premiação foi uma experiência única: participar da soltura de filhotes nas praias onde os ninhos são monitorados.
'Tartarugas são importantes para a natureza'
Os estudantes vencedores puderam acompanhar de perto o trabalho das equipes do projeto e participar da devolução de cerca de 5 mil tartaruguinhas ao rio. Para a estudante Maria Isabela Sampaio, de 12 anos, foi uma experiência "mágica".
Bruno de Souza, de 16 anos e Maria Isabela Sampaio, de 12 anos, crianças da comunidade Sacaí que participaram da soltura de tartarugas-da-Amazônia
Caíque Rodrigues/g1 RR
"Foi muita alegria e emoção, porque eu nunca tinha participado de algo assim. Aprendi que as tartarugas são importantes para a natureza", disse.
O estudante Bruno de Souza, de 16 anos, também participou da soltura e destacou a importância da atividade para garantir a sobrevivência dos animais.
"Muitas tartarugas não conseguem chegar até o rio por causa dos predadores. Poder ajudar soltando os filhotes e dando uma nova chance de vida para elas é muito especial", afirmou.
🚣♀️ Mudança de mentalidade na comunidade
A presença constante do projeto e o diálogo com os moradores ajudaram a construir uma nova relação entre a comunidade e os animais. O pescador Mário Jorge Oliveira, de 47 anos, avalia que preservar as tartarugas significa também preservar a própria história da região.
“Antigamente, há uns 20 ou 25 anos, a gente via muito mais quelônios no rio. Hoje já não é assim. Por isso a gente entende a necessidade de proteger esses animais”.
Ele afirma que a conservação também é uma forma de garantir que as próximas gerações tenham contato com a natureza da mesma forma que os moradores mais antigos tiveram: "Se a gente não preservar, as novas gerações não vão ver o que a gente viu. Preservando, eles vão poder admirar a natureza como ela é linda”, afirma.
Segundo ela, no passado era comum a presença de pessoas de fora que vinham até o Baixo Rio Branco para capturar tartarugas ou retirar ovos das praias.
A dona de casa Maria Francisca Moura, de 63 anos, mora na comunidade há mais de duas décadas e diz que percebeu uma mudança significativa no comportamento dos moradores desde que o projeto começou a atuar na região.
“A comunidade se conscientizou muito mais. Não tem mais aquela caça predatória de tartaruga como tinha antes”, afirmou.
“Hoje a gente vê as placas do projeto e ninguém quer mexer. Pelo contrário, a gente apoia. Eu sou muito a favor disso”, disse.
Maria Francisca diz que os próprios moradores passaram a defender a preservação da espécie e a respeitar as regras de proteção nas áreas de reprodução.
O PQA tem uma história multifacetada com um foco central na conservação das tartarugas amazônicas. O projeto foi criado para proteger os ninhos e filhotes, garantindo a segurança durante a fase inicial de vida e salvou cerca de 100 milhões de filhotes no Brasil.
⛺ Projeto Quelônios da Amazônia
Comunidade de Sacaí, no Baixo Rio Branco, em Roraima
Caíque Rodrigues/g1 RR
A região onde o PQA atua é considerada uma área protegida, com proibição da pesca, principalmente com redes do tipo malhador, durante o período reprodutivo.
O projeto é uma iniciativa do Ibama, mas tem parceria da Fundação Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Femarh), especialmente na região do Baixo Rio Branco, dentro das unidades de conservação estadual.
Em Roraima, as equipes em campo são compostas por servidores do Ibama, pilotos de barcos, policiais para a segurança dos servidores e colaboradores locais.
Um dos resultados mais significativos do PQA é que a tartaruga-da-Amazônia está saindo da lista de animais ameaçados de extinção.
O projeto tem com o apoio da Companhia Independente de Policiamento Ambiental (Cipa), que monitora atividades ilegais e medeia conflitos com pescadores e ribeirinhos.
Filhote de tartaruga-da-Amazônia no Baixo Rio Branco
Caíque Rodrigues/g1 RR
Crianças e adolescentes parcipam de ação educativa sobre tartarugas-da-Amazônia, no Baixo Rio Branco
Caíque Rodrigues/g1 RR
Alunos de escola ribeirinha soltam cerca de 5 mil filhotes de tartaruga-da-Amazônia em ação de 2026
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Filhotes de tartarugas-da-Amazônia correm na praia em direção ao rio, no Baixo Rio Branco
Caíque Rodrigues/g1 RR
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