Corrida ao ritmo de 'Noiadance' arrasta centenas de pessoas pelas ruas de Porto Velho
17/05/2026
(Foto: Reprodução) Corrida ao ritmo de 'Noiadance' arrasta centenas de pessoas em Porto Velho
O que começou como uma corrida entre amigos virou um dos encontros mais movimentados de Porto Velho. Ao som do Noiadance, o Funpace reúne centenas de pessoas todas as terças-feiras em uma mistura de esporte, música e vida social.
O encontro acontece às 19h30, no complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré (EFMM), e ficou conhecido entre os participantes como um verdadeiro “culto”. O nome Funpace, expressão que pode ser traduzida livremente como “ritmo divertido”, resume a proposta do grupo: transformar a corrida em uma experiência coletiva, fazer amizades e um novo estilo de vida.
🔍 O fenômeno acompanha o crescimento das corridas de rua em todo o país. Segundo a Associação Brasileira de Organizadores de Corridas de Rua e Esportes Outdoor (ABRACEO), a modalidade cresceu 85% em 2025, depois de já ter registrado aumento de 24% em 2024.
Em Porto Velho, esse movimento ganhou identidade própria. O Funpace nasceu oficialmente em setembro de 2025, a partir de um evento simples criado no Strava, rede social voltada para atividades físicas. A primeira edição recebeu o nome de NR (Night Run) 01. Hoje, o coletivo já soma mais de 20 encontros.
Em entrevista ao g1, Lucas Rômulo, um dos fundadores do coletivo, contou que entre 20 e 25 pessoas participaram do primeiro encontro. Segundo ele, a maioria era formada por mulheres.
O início foi improvisado e até um pouco caótico. No primeiro encontro, um dos organizadores chegou atrasado, fazendo alguns participantes acreditarem que o evento poderia ser falso.
“Hoje, essa história virou motivo de riso. Na época, era só o começo de algo despretensioso, mas com grande propósito”, conta Lucas.
Naquele momento, os encontros aconteciam em um posto de combustível na Avenida Jorge Teixeira, próximo à Rodoviária “Destemidos Pioneiros”. O percurso de cinco quilômetros passava pelas avenidas Carlos Gomes, Farquar e Duque de Caxias antes de voltar ao ponto inicial.
Mas o que começou pequeno cresceu rápido. A cada terça-feira, mais pessoas apareciam vestindo o dress code do grupo — roupas pretas ou brancas — até que dezenas viraram centenas. Hoje, segundo Lucas, mais de 20 mil pessoas já participaram do “culto”.
“A cada semana era nítido que mais pessoas compareciam aos encontros. Mas, a partir da NR 09, saímos de 100 para mais de 300 participantes todas as semanas”, relembra.
O Holidays Run, último encontro de 2025, marcou uma virada para o coletivo. Com o crescimento do público, os organizadores decidiram levar os encontros para o complexo da EFMM, em busca de um espaço que representasse melhor a identidade cultural e histórica da cidade.
“Para a próxima estação entendemos que precisava ser em um ponto que marcasse a cultura e a história de Porto Velho e, acima de tudo, que comportasse o crescimento do movimento”, explica Lucas.
No ritmo de Porto Velho
No ritmo do Noiadance, coletivo de corrida transforma as noites de Porto Velho
Reprodução/FUNPACE
Segundo Lucas, a ideia era fugir da pressão das corridas tradicionais: nada de competição, comparação ou cobrança. A proposta era correr pelo prazer, pela experiência e pela companhia. Tudo guiado pelo lema: “ninguém solta a mão de ninguém”.
Nos encontros, os corredores seguem juntos, guiados por um pacer, pessoa responsável por manter o ritmo coletivo. Durante os cinco quilômetros de percurso, o que move o grupo vai além do fôlego: playlists recheadas de música, principalmente o Noiadance, ajudam a transformar a corrida em uma experiência quase coreografada.
O estilo musical ganhou projeção nacional em 2025, depois que o hit “Santinha”, do DJ Felipe Moraes, viralizou nas redes sociais. Mas em Porto Velho o Noiadance já fazia parte da cultura popular há anos, embalando festas nas zonas Leste e Sul da cidade.
Com o tempo, o ritmo atravessou bairros, ganhou o centro da capital e passou a ocupar festas, eventos e comemorações. Hoje, já é uma das marcas culturais porto-velhenses, reunindo multidões no Carnaval com o bloco Remix Folia e, agora, também nas corridas do Funpace.
Curiosamente, o Noiadance não fazia parte das primeiras playlists do grupo. Segundo Lucas, os encontros começaram ao som de músicas eletrônicas como “Rhythm of the Night” e “Ai Ai Ai Remix”, da cantora Vanessa da Mata.
Mas os pedidos do público mudaram o rumo da trilha sonora e também da experiência.
“Numa determinada terça-feira, a pedido da Victoria Souza [participante do Funpace], me rendi a deixar tocar um Noiadance que fosse audível para todos os públicos [...] Foi colocar a música e a magia acontecer. Algo instantâneo aconteceu. A atmosfera mudou”, relembra.
Segundo Lucas, a seleção musical é pensada para agradar diferentes públicos, já que muitas famílias, pais e crianças participam dos encontros. As músicas têm batidas aceleradas, ajudando o grupo a manter o ritmo durante a corrida.
“A música é parte fundamental da nossa experiência. O Noiadance reforçou a alta carga de dopamina [neurotransmissor ligado à sensação de prazer e recompensa] na corrida, especialmente quando as pessoas sentem que podem cantar e dançar juntas”, conta Lucas.
Corrida coletiva e os benefícios
Desde a pandemia, a corrida de rua ganhou ainda mais espaço no Brasil. Em Porto Velho, o crescimento pode ser visto em locais como o Espaço Alternativo, o Skate Parque e outros pontos usados para atividades ao ar livre.
Cada vez mais jovens passaram a enxergar a corrida não só como esporte, mas também como estilo de vida, lazer e forma de se conectar com outras pessoas. Esse cenário ajudou no surgimento de coletivos como o Funpace.
🏃 Na corrida, o pace (ritmo, em inglês) representa o tempo que um corredor leva para percorrer um quilômetro (min/km). O índice ajuda a medir a velocidade média, controlar a intensidade dos treinos e planejar o desempenho nas provas.
Ao g1, o preparador físico especializado em corrida, Sandro Migueres, afirmou que a pandemia teve papel importante nesse crescimento. Segundo ele, a corrida também se destaca por ser acessível.
“Com a pandemia, muitas pessoas passaram a se preocupar mais com a saúde, e a corrida foi um dos poucos esportes viáveis durante aquele período. Qualquer tênis pode atender alguém no começo, e não é necessário muito para sair na rua e correr os primeiros quilômetros”, explica.
Para Sandro, os grupos ajudam a manter a motivação e fortalecem o hábito da prática esportiva.
Segundo ele, correr acompanhado transforma completamente a experiência. Enquanto a corrida individual exige disciplina constante, o grupo cria incentivo, amizade e sensação de pertencimento.
“Correr sozinho é bom. Correr fazendo parte de um grupo é melhor. Mesmo que cada pessoa faça seu treino individualmente, ter aquela ‘resenha’ pós-treino é fundamental para se sentir parte do grupo e enxergar a atividade como uma extensão da vida cotidiana, e não apenas como obrigação”, afirma.
O especialista também alerta para os excessos. Sem orientação adequada, a prática exagerada pode causar lesões.
Além da corrida
Para muitos participantes, o Funpace já deixou de ser apenas uma corrida. Entre músicas, encontros e quilômetros compartilhados, o grupo ajudou a criar amizades, casais e novas conexões sociais em Porto Velho.
Segundo Lucas, o movimento também fortalece a economia local, movimenta o complexo da EFMM e representa um projeto pioneiro de corrida coletiva na região Norte.
Na visão dele, o Funpace “furou a bolha” e ajudou a transformar hábitos e comportamentos na capital rondoniense.
“Um horário diferente, um dia diferente, um local diferente, uma rota diferente. A adoção de dress code, linguagem própria e rituais próprios. Tudo isso para trazer um novo jeito, uma nova cultura para a cidade de Porto Velho”, conclui.
Evento Holidays Run, último encontro de 2025
Mateus Santos/g1 RO
No ritmo do Noiadance, coletivo de corrida transforma as noites de Porto Velho
Reprodução/FUNPACE
No ritmo do Noiadance, coletivo de corrida transforma as noites de Porto Velho
Reprodução/FUNPACE