Ex-presidente do BRB afirma que banco acreditava comprar créditos do Master; Vorcaro diz que informou sobre carteiras de terceiros
23/01/2026
(Foto: Reprodução) Julia Duailibi avalia os efeitos do caso Banco Master no STF
O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Paulo Henrique Bezerra afirmou que o banco só descobriu que as carteiras de crédito compradas do Banco Master eram de terceiros após revisar contratos e fazer questionamentos formais sobre a origem dos ativos. Daniel Vorcaro, dono do Master, diz que a mudança no modelo foi informada desde o início das negociações. As declarações foram feitas em acareação no âmbito da investigação da Polícia Federal.
O blog teve acesso à transcrição dos depoimentos prestados no fim de 2025 à delegada da Polícia Federal responsável pelo caso, no âmbito das investigações sobre as operações entre o Banco Master e o BRB e a crise de liquidez da instituição privada.
Segundo Bezerra, o BRB operou inicialmente com a percepção de que os créditos eram originados pelo próprio Master. Ele disse que, até abril, o banco seguiu comprando as carteiras sem questionar formalmente quem eram os originadores específicos.
A mudança de postura ocorreu quando a equipe técnica do banco identificou um padrão documental diferente em parte dos contratos analisados. A partir dessa constatação, o BRB passou a fazer questionamentos formais sobre a origem das carteiras.
Em maio, o banco recebeu a informação de que a empresa Tirreno atuava como consolidadora, reunindo créditos provenientes de cerca de vinte correspondentes bancários distintos. Bezerra afirmou que a identificação dessa estrutura alterou a forma como o BRB avaliava os riscos financeiros e operacionais da operação.
Entenda o que está por trás da liquidação do Banco Master
Segundo Daniel Vorcaro, o Master comunicou ao BRB uma mudança no modelo de comercialização, passando a vender carteiras originadas por terceiros em vez de créditos próprios. Ele afirmou que a informação sobre a participação de originadores externos foi prestada desde o início das tratativas, ainda que o nome Tirreno não fosse um elemento central naquele momento.
Vorcaro declarou que a identidade do originador na ponta não seria relevante para o risco da operação, sustentando que o risco estaria concentrado no cliente final, o tomador do empréstimo.
Ele reconheceu que o Master enfrentava um período de restrição de liquidez, mas afirmou que o impacto da operação foi administrado por meio de planejamento e pela substituição dos ativos originalmente negociados com o BRB.
Após a análise detalhada dos contratos e a reorganização dos ativos pelo BRB, o ex-presidente relatou que cerca de R$ 800 milhões permaneceram pendentes de precificação, por estarem vinculados a ações classificadas como ativos voláteis, cujo valor final ainda dependia de validação de mercado.
Ele também afirmou que o BRB decidiu elevar a provisão para perda esperada das carteiras, de um patamar estimado entre 10% e 15% para cerca de 30%, como forma de mitigar o risco de inadimplência, o que gerou um deságio relevante na operação.
Na prática, deságio significa que o banco passou a considerar que aqueles ativos valiam menos do que o valor original registrado, como uma forma de se proteger contra possíveis perdas futuras.
Bezerra também disse que o BRB deixou de exigir o saque imediato de valores associados à Tirreno porque sabia que os recursos não existiam naquele momento. Segundo ele, uma cobrança integral poderia provocar uma quebra em sequência da Tirreno e do próprio Banco Master.
Vorcaro afirmou que a operação teria sido majoritariamente coberta por substituição de ativos e garantias. Segundo ele, restou apenas um saldo residual, que não teria sido formalizado antes da liquidação do banco, mas que estaria amparado por garantias adicionais.
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Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Banco Master
Operações bilionárias entre BRB e Master estão sendo investigadas
Reuters via BBC