'Fishwatching': observação de peixes alia conexão com a natureza, fotografia e bem-estar
01/06/2026
(Foto: Reprodução) Foto tirada durante fishwatching
Reprodução Instagram (@brazilianstreams)
O Brasil guarda um mundo vibrante e silencioso logo abaixo da superfície de seus rios. Para quem já tem o olhar treinado e a paixão pela observação de aves nas copas das árvores, abaixar a cabeça e romper o espelho d'água revela um universo onde o tempo parece correr em outro ritmo.
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A observação de peixes em seu habitat natural — o chamado fishwatching — vai muito além do ecoturismo: é um mergulho profundo na conscientização ambiental, que rende registros fotográficos espetaculares e transforma a nossa relação com a rica biodiversidade aquática.
O engenheiro e consultor ambiental Fernando Henriques sabe bem disso. Voluntário do Projeto Piaba — iniciativa que promove o manejo sustentável de peixes ornamentais na Bacia do Rio Negro —, ele transformou o fascínio que tinha pelos aquários em uma busca ativa pelos jardins submersos de água doce no Brasil.
Em entrevista exclusiva, ele detalha os encantos e as peculiaridades dessa prática que une ciência, contemplação e muita calma.
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Foto tirada durante fishwatching
Reprodução Instagram (@brazilianstreams)
O silêncio e a proximidade
A transição do meio terrestre para o aquático exige, antes de tudo, uma mudança de estado de espírito. A dinâmica com a fauna é incrivelmente diferente daquela vivida em terra firme.
"Antes de mais nada, a calma e o silêncio da paisagem subaquática, que já é, muitas vezes, impressionante por si só, é um belo atrativo para direcionar o olhar para debaixo da água. Ao contrário da maioria das aves e animais terrestres, muitas das espécies de peixes são muito pouco ariscas, permitindo uma aproximação muito maior do observador e uma observação mais detalhada e atenta. É possível observar peixes a poucos centímetros da lente ou da câmera."
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Da transparência de Bonito aos igarapés amazônicos
Quando se fala em águas cristalinas no Brasil, a cidade de Bonito (MS) é, merecidamente, o destino mais lembrado. No entanto, Fernando destaca a região amazônica como a grande e intocada fronteira do mergulho contemplativo brasileiro.
"Os igarapés da Amazônia são os lugares mais incríveis para quem quer visitar um ambiente alternativo", afirma o consultor.
Foto tirada durante fishwatching
Reprodução Instagram (@brazilianstreams)
Ele explica que, embora grandes rios como o Negro e o Solimões tenham pouca visibilidade natural, os pequenos canais (igarapés) que os alimentam escondem águas translúcidas, especialmente na época de seca.
"A biodiversidade dos igarapés amazônicos é enorme e ganha de todos os outros biomas brasileiros, e alguns dos peixes chegam a ter cores bem vibrantes, como o neon cardinal, o peixe símbolo dos igarapés do Rio Negro, na região de Barcelos."
Mas engana-se quem pensa que a prática se restringe ao Norte ou Centro-Oeste. Riachos de cachoeira na Mata Atlântica do Sudeste, as veredas do Cerrado de Guimarães Rosa e até mesmo no sertão da Caatinga nordestina oferecem bons locais de flutuação para olhares atentos.
A arte de flutuar: equipamento e acessibilidade
A boa notícia para os iniciantes na observação e fotografia aquática é que não é preciso um complexo equipamento de mergulho autônomo para começar. A atividade se destaca pela acessibilidade.
"Basta achar um rio de águas claras, sem grandes influências humanas, e mergulhar de máscara, snorkel e um celular à prova d'água ou em um estojo estanque. Quem não sabe nadar consegue observar bem utilizando um colete salva-vidas", garante Fernando.
Foto tirada durante fishwatching
Reprodução Instagram (@brazilianstreams)
Uma vez na água, a técnica principal é flutuar com tranquilidade. Enquanto os peixes maiores dominam o canal profundo, a grande riqueza e as cores se escondem nas margens rasas e entre as plantas aquáticas.
"Como em toda observação de vida silvestre, manter a calma, evitar movimentos bruscos e manter o silêncio (mais fácil debaixo da água) aumentam a chance de sucesso e criam um verdadeiro estado calmo e meditativo", complementa.
Comportamentos curiosos e predação noturna
A ideia de que os peixes são animais fugazes de pouca personalidade cai por água abaixo quando se passa tempo suficiente no ambiente deles.
Ciclídeos, popularmente conhecidos como carás, são notórios por serem curiosos e territoriais. Segundo Fernando, é comum que eles venham na direção do mergulhador, "olhando no seu olho para saber qual é a sua, mas sempre sem agressividade".
O cair da noite, no entanto, transforma completamente a dinâmica dos rios e praias de água doce. "À noite, na beira do Rio Negro, em bancos de areia, é possível observar peixes sem nem mesmo entrar na água, apenas com uma lanterna", relata.
"Arraias da cor da areia esperando pacientemente sobre a areia na água rasa até que uma piaba ou lambari desavisado nade sobre ela e: vupt! Num piscar de olhos a arraia levanta a aba frontal de seu disco, cria um vácuo e suga o desafortunado para a sua boca."
O primeiro acará-bandeira a gente nunca esquece
Foto tirada durante fishwatching
Reprodução Instagram (@brazilianstreams)
Todo amante da natureza tem um registro que muda definitivamente a sua trajetória. Para Fernando, o "encontro inesquecível" aconteceu no Igarapé da Terra Preta, na Floresta Nacional do Tapajós (PA).
Durante um mergulho despretensioso com máscara e snorkel após o almoço na comunidade local, ele se deparou com um exuberante jardim subaquático de ninfeias.
"Ao explorar esse jardim, de repente me deparei com um peixe maior: prateado com listras verticais escuras, um comprimento de uns 15 centímetros e um formato de losango, como uma pipa ou papagaio. Era um acará-bandeira selvagem, um dos peixes mais marcantes nas lojas de aquário do mundo todo, muito elegante e bonito. Foi uma surpresa!"
A partir daquele dia, ele passou a buscar ativamente novas oportunidades de mergulho, acompanhado de sua esposa, levando a paixão recém-descoberta nos riachos amazônicos até o litoral de São Paulo.
O fishwatching como ferramenta de conservação
O contato íntimo e desarmado com o ambiente subaquático tem um forte poder transformador, gerando defensores ativos das matas ciliares.
"A partir do momento em que descobri o que há debaixo da água, fui muito mais vezes à Mata Atlântica, comecei a prestar atenção nos riachos, qual o seu estado de conservação, se as águas estão claras ou barrentas por causa de erosão agrícola", pontua o engenheiro.
Essa educação visual afeta também quem vive às margens das águas. Fernando relembra uma expedição no Rio Arapiuns (PA), quando emprestou suas máscaras aos guias locais.
Acostumados a olhar para o rio apenas em busca de peixes de interesse comercial e alimentar, como o tucunaré ou a matrinxã, os rapazes viram as pequenas "piabinhas" com outros olhos.
"Eles se impressionaram com a beleza, variedade e cores dos peixes pequenos. Passaram o resto do passeio usando as máscaras para descobrir mais um aspecto do ambiente que já conheciam tão bem."
No fim, é esse respeito pela biodiversidade de todos os tamanhos e cores que a prática promove: a certeza de que as nossas águas protegem tesouros vivos muito mais espetaculares em seu ambiente natural do que isolados em quatro paredes de vidro.
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