Interesse dos EUA pela Groenlândia remonta ao século 19: entenda o que está por trás disso

  • 07/01/2026
(Foto: Reprodução)
Trump diz que os EUA precisam da Groenlândia e gera reação internacional Após consolidar a captura de Nicolás Maduro e indicar que a pressão militar americana no hemisfério ocidental ainda não se encerrou, o presidente dos EUA, Donald Trump, retomou sua atenção à Groenlândia. A retórica pela anexação do território autônomo dinamarquês, no entanto, não é recente, e remonta a um interesse americano disparado há mais de um século. A privilegiada posição da Groenlândia no Atlântico Norte levou os EUA a considerarem a compra ou anexação do território em diversas ocasiões, seja para consolidar o poder no hemisfério pós-Guerra Civil, seja para impedir o avanço russo na Guerra Fria. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp O interesse dos EUA é novo? O interesse dos EUA pela Groenlândia está longe de ser novo. Já em 1867 – o ano em que os EUA compraram o Alasca da Rússia –, políticos consideraram anexar a Groenlândia e também a Islândia. O país havia saído de uma guerra civil no ano anterior e se deixava levar por um espírito expansionista, tentando consolidar rotas marítimas estratégicas. Em 1º de julho de 1868, quando a doutrina Monroe e o desejo de libertar o continente da influência europeia ganhava fôlego, jornais americanos noticiaram que o então secretário de Estado William Henry Seward estaria prestes a concluir a compra da Groenlândia por 5,5 milhões de dólares em ouro. Havia um entendimento no governo americano de que a ilha aumentaria a influência naval dos EUA diante do crescente interesse europeu na região. Um relatório encomendado por Seward, que também defendia a anexação do Canadá, indicava a grande quantidade de vida animal e "bens minerais" na Groenlândia. Entre eles, citava a criolita, um mineral usado na indústria do alumínio. Contudo, a proposta da Casa Branca chegou aos ouvidos do Congresso americano, que prontamente rejeitou o uso de fundos para comprar novas terras. A ideia foi ridicularizada pelos parlamentares, que não viam grandes vantagens na aquisição do território tomado por gelo. Moradores da Groenlândia fazem protesto contra os EUA, em 15 de março de 2025 Christian Klindt Soelbeck/Ritzau Scanpix/via REUTERS O acordo não se concretizou, mas a ideia permaneceu por décadas. No início da Segunda Guerra Mundial, em 1941, quando a Alemanha ocupou a Dinamarca, os EUA de fato avançaram sobre a Groenlândia para garantir a defesa do território. Foi nesse período que instalaram por lá bases e sistemas militares que perduram até hoje. Documentos desclassificados desde a década de 1970 mostram que, em 1946, ao fim da guerra, os EUA chegaram a oferecer a compra da Groenlândia por 100 milhões de dólares, pagos em ouro, depois de flertar com a ideia de trocar terras ricas em petróleo no Alasca por partes estratégicas do território dinamarquês. A proposta não ganhou tração, e a Dinamarca retomou a administração do território. No entanto, após tentativas dinamarquesas de persuadir os EUA a deixarem a Groenlândia de forma permanente, os dois países se tornaram membros da Otan e, em 1951, assinaram um tratado bilateral de defesa. Nele, Washington manteria suas bases e se comprometeria a defender a Groenlândia de qualquer ameaça. Naquele ano, ficou autorizada a construção da Base Aérea de Thule. Hoje chamada Base Espacial de Pituffik, ela serve à vigilância espacial e é considerada um pilar central do sistema americano de alerta precoce para lançamentos de mísseis. LEIA TAMBÉM Trump discute opções para adquirir a Groenlândia e não descarta uso das Forças Armadas 'Não há agente externo que governe a Venezuela', diz presidente interina, Delcy Rodríguez, em resposta a Trump França e Reino Unido assinam declaração sobre envio de forças à Ucrânia Ameaça soviética renova interesse A base espacial Pituffik, na Groenlândia, anteriormente chamada de base aérea de Thule, é propriedade dos Estados Unidos AFP Já em 1955, durante a Guerra Fria, assessores de segurança tentaram convencer o então presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, a comprar a ilha. Desta vez, a justificativa era que a Groenlândia ofereceria posição fundamental para construir um sistema de vigilância e monitorar movimentos da URSS. "À luz da ameaça soviético-comunista à segurança do Mundo Livre e nesta era de distâncias cada vez menores e potenciais atômicos, a Groenlândia assumiu progressivamente uma importância estratégica cada vez maior para os Estados Unidos", disse o governo americano em um documento desclassificado daquele ano. Segundo a Casa Branca, "pela primeira vez, os Estados Unidos devem agora estar preparados para se defender contra um ataque surpresa de proporções possivelmente devastadoras no início da guerra e para retaliar de forma rápida e eficaz com todos os meios à sua disposição". Contudo, com o tratado de defesa de 1951, a Dinamarca já havia concedido aos EUA uma margem de atuação tão ampla que o gabinete considerou arriscado demais, do ponto de vista diplomático, avançar com tais iniciativas. Também havia um temor de que a ação alimentasse narrativas soviéticas contrárias ao imperialismo americano. O acordo já dava amplos poderes a Washington para manter sua atuação militar na Groenlândia, diante da baixa capacidade dinamarquesa de defender o território em caso de ataque. A ideia não foi enterrada, mas passou a ser discutida principalmente nos bastidores e monitorada pelo Pentágono. Em 2008, a exploração comercial das reservas minerais da ilha também aguçou o interesse de Rússia e Canadá. Foi Donald Trump quem a trouxe novamente aos holofotes durante seu primeiro mandato (2017–2021). Em agosto de 2019, uma visita de Estado planejada à Dinamarca foi cancelada de última hora por Trump depois que a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, classificou como "absurda" a ideia de vender a Groenlândia aos EUA. O republicano retomou a proposta de forma mais incisiva no segundo mandato, desta vez indicando até mesmo interesse por uma anexação forçada do território. Em seu discurso mais recente, enunciado após a ação militar que capturou Nicolás Maduro na Venezuela, disse que Washington precisa da Groenlândia por razões de "segurança nacional". A proposta foi novamente rechaçada por líderes europeus. "Deixei muito claro qual é a posição do Reino da Dinamarca, e a Groenlândia afirmou repetidamente que não deseja se tornar parte dos Estados Unidos", disse Mette Frederiksen, nesta segunda-feira. "Infelizmente, temo que seja preciso levar o presidente americano a sério quando ele diz que quer a Groenlândia." De onde vem a reivindicação da Dinamarca sobre a Groenlândia? Foto de julho de 2011 mostra um barco navegando lentamente através do gelo flutuante e ao redor de icebergs em Ilulissat, na Groenlândia. As Organizações Meteorológicas Mundiais confirmaram publicamente nesta quarta-feira (23) o recorde de temperatura negativa para o hemisfério: -69,6ºC, registrado em 22 de dezembro de 1991 Brennan Linsley/Arquivo/AP A Groenlândia, então habitada pelos povos inuit, foi primeiro colonizada pelos europeus em 1721, quando a então Dinamarca-Noruega enviou sua primeira expedição missionária. O período colonial na ilha terminou em 1953, quando a Groenlândia se tornou parte oficial do Reino da Dinamarca, com representação no Parlamento dinamarquês. Já em 1979, Copenhague concedeu ao território a capacidade de autogestão, e uma lei de 2009 fortaleceu a autonomia. O chamado Self‑Government Act ampliou os poderes do governo groenlandês e seu controle sobre recursos naturais. A soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia é reconhecida internacionalmente, inclusive por uma decisão do Tribunal Internacional Permanente de Justiça, principal órgão judicial da ONU, de 1933. Mas do ponto de vista econômico, a ilha é fortemente dependente da Dinamarca. No entanto, de acordo com os princípios do direito internacional das Nações Unidas, a Groenlândia tem o direito à autodeterminação. A lei de autonomia de 2009 também inclui o direito dos groenlandeses de decidirem, por meio de um referendo, sobre sua independência plena. As discussões a esse respeito ganharam maior intensidade nos últimos anos. Hoje, a Groenlândia pertence à Dinamarca politicamente, mas apenas sua política externa e de segurança continua sendo definida em Copenhague. Diante das declarações recentes dos EUA, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, reafirmou que o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados é "inegociável". Por que Groenlândia voltou aos holofotes? Donald Trump Jr. chegou há poucos dias a Nuuk, na Groenlândia Emil Stach/Ritzau Scanpix/via REUTERS Ocupando cerca de metade do tamanho somado dos países da União Europeia (UE), a Groenlândia é a maior ilha do mundo. Em seus pouco mais de 2 milhões de quilômetros quadrados vivem, porém, apenas cerca de 60 mil pessoas. A maioria pertence aos inuit Kalaallit e vive em pequenas cidades costeiras. Cerca de um terço habita a capital, Nuuk. A ilha se estende do Atlântico Norte até o gelo eterno do Oceano Ártico. Oitenta por cento da superfície da Groenlândia é coberta por uma camada de gelo. Apenas as regiões costeiras – ainda assim uma área um pouco maior que a Alemanha – ficam livres de gelo durante o verão. O aquecimento global, no entanto, faz com queas massas de gelo em todo o Oceano Ártico encolham gradualmente. Isso torna o interior da Groenlândia mais acessível, o que abre novas rotas marítimas pelo Ártico e torna mais viável a exploração de matérias-primas críticas. Entre elas, estão urânio, petróleo e gás natural, além das duas maiores jazidas conhecidas de terras raras do mundo. Somam-se a isso níquel, cobre, ouro e grafite. A extração destes materiais foi interrompida pelo governo groenlandês por razões ambientais. Trump rejeita que seu interesse seja nos minerais da região. Segundo ele, Washington vê a ilha como um posto avançado estratégico no espaço ártico, especialmente diante das atividades crescentes da Rússia e da China na região. Isso também envolve limitar o acesso de outras grandes potências aos recursos do Ártico e ao seu controle sobre novas rotas marítimas. VÍDEOS: mais assistidos do g1

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/01/07/interesse-dos-eua-pela-groenlandia-remonta-ao-seculo-19-entenda-o-que-esta-por-tras-disso.ghtml


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