Quando foi o último 'super' El Niño? Entenda por que o intervalo entre os eventos extremos vem encurtando

  • 24/05/2026
(Foto: Reprodução)
Inundações causadas pelo fenômeno El Niño de 2016-2017 no Peru afetaram 1,9 milhão de pessoas Sandro Chambergo/AP Nem os cientistas concordam totalmente sobre quando foi que o último “super” El Niño aconteceu. Para parte deles, o fenômeno mais recente desse porte foi o de 2015-2016, considerado o mais intenso já registrado na era moderna. Já outros pesquisadores incluem também o episódio de 2023-2024, que chegou muito perto do limite usado para classificar os eventos mais extremos. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça No caso de 2015-2016, o aquecimento das águas do Pacífico equatorial chegou a cerca de 2,6 °C acima da média, o maior valor já observado por instrumentos modernos. Já em 2023-2024, as temperaturas ficaram em torno de 2 °C acima da média no auge do fenômeno, beirando o limite usado por parte da comunidade científica para definir um “super” El Niño. E a escolha entre uma e outra definição não muda apenas o nome do evento. Ela ajuda a explicar um padrão que vem chamando a atenção de pesquisadores: os intervalos entre os El Niños mais intensos estão diminuindo. A previsão da NOAA, agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos, divulgada no começo deste mês é a de que um novo episódio forte ou muito forte deve se desenvolver até o fim de 2026, com 96% de probabilidade de persistir entre dezembro deste ano e fevereiro de 2027. Agora no g1 Já projeções recentes do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas (ECMWF) chegaram a indicar valores próximos de 3°C, acima do limiar usado para classificar eventos muito fortes. Mas interpretar esse número exige cuidado. Isso porque “super El Niño” não é uma categoria oficial única: em geral, cientistas usam esse termo para eventos muito acima da média, mas o limite exato pode variar conforme o critério adotado A NOAA, por exemplo, reconhece o patamar de 2 °C como o limiar informal para um El Niño "muito forte" ou "historicamente forte", enquanto 1,5 °C marca a categoria "forte". A medição é feita pelo chamado Oceanic Niño Index (ONI), que acompanha a temperatura da superfície do mar em uma faixa do Pacífico equatorial chamada região Niño-3.4. "A atmosfera é, por natureza, um sistema caótico", explica ao g1 Pedro Ivo Camarinha, doutor em Mudanças Climáticas e Desastres e diretor substituto do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). "Isso significa que pequenas mudanças nas condições iniciais ou mesmo na forma como os modelos climáticos são calibrados podem produzir resultados muito diferentes ao longo do tempo. Por isso, é natural que existam divergências entre as projeções feitas por diferentes centros meteorológicos." Entenda mais abaixo. LEIA TAMBÉM: Drama de baleia encalhada há semanas na Alemanha mobiliza protestos e levanta dilema sobre resgate; entenda Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' El Niño em setembro de 2023 NOAA Os cinco eventos extremos desde 1950 Pelo critério da NOAA, foram cinco super El Niños em sete décadas. Cada um tem características próprias, mas todos provocaram desastres em larga escala em diferentes partes do planeta: 1972-1973, com pico de 2,1 °C. Marcou o início da pesquisa científica sistemática sobre o fenômeno. Secas atingiram América Central, Sahel, Austrália, Brasil, Índia, Indonésia e União Soviética. Na época, a produção global de alimentos caiu pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra. No Peru, a indústria pesqueira colapsou e milhões de aves marinhas morreram de fome. 1982-1983, pico de 2,2 °C. Em pontos mais próximos da costa do Peru, a anomalia chegou a 4 °C em alguns momentos, e o fenômeno durou quase dois anos. Cerca de 2 mil pessoas morreram em decorrência direta do evento, e centenas de milhares foram deslocadas. No Nordeste do Brasil, provocou uma das piores secas do século 20. 1997-1998, com pico de 2,4 °C. Foi o mais forte do século 20 e popularizou o termo "El Niño" para o grande público. Causou ao redor de 23 mil mortes, segundo a ONU, e a morte de 16% dos sistemas de recifes do mundo. Surtos de cólera devastaram a África Oriental nos primeiros meses de 1998. 2015-2016, com pico de 2,6 °C, o maior do registro moderno. Afetou mais de 60 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial da Saúde, principalmente no leste e sul da África, América Latina, Caribe e Ásia-Pacífico. Na Amazônia, a seca extrema combinada às queimadas matou cerca de 2,5 bilhões de árvores em uma área que representa 1% da floresta brasileira. 2023-2024, com pico de cerca de 2 °C, no limite da classificação muito forte. Levou a temperatura média global a ultrapassar pela primeira vez 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Provocou duas secas consecutivas na bacia amazônica, com rios em mínimas históricas, e foi a peça de fundo das enchentes que mataram 181 pessoas no Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024. "Desde o El Niño de 1982/83, que foi o segundo mais intenso do século passado, o mundo vem estudando em mais detalhe este fenômeno", explica ao g1 Tercio Ambrizzi, especialista em mudanças climáticas e professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. "Com o avanço dos modelos numéricos de previsão de longo período e os dados observados, atualmente conseguimos ter um conhecimento antecipado de quando este fenômeno irá ocorrer". LEIA TAMBÉM: Onde está a Timmy? Libertação de baleia gera nova polêmica na Alemanha Por que Amsterdã proibiu qualquer propaganda de carne nas ruas ANTES e DEPOIS: imagem da Nasa mostra geleira na Antártida que recuou 25 km em tempo recorde Comparação do aquecimento anormal do Oceano Pacífico durante os fortes eventos de El Niño de 1982-1983 (acima) e 1997 (abaixo), dois dos mais intensos já registrados. NOAA AVHRR Quando os pesquisadores analisam a sequência desses cinco episódios ao longo do tempo, um padrão começa a aparecer — e é justamente esse comportamento que vem chamando atenção da literatura científica nos últimos anos: De 1972 para 1982 se passaram 10 anos. De 1982 para 1997, 15 anos. De 1997 para 2015, 18 anos. De 2015 para 2023, apenas 8 anos. Se o evento previsto para 2026-2027 se confirmar como muito forte, o intervalo desde 2023 será de 3 anos. A sequência desses eventos não segue uma linha perfeitamente contínua. Entre 1982 e 2015, por exemplo, os intervalos entre os episódios chegaram a aumentar. A aceleração percebida pelos cientistas aparece de forma mais clara nos dois eventos mais recentes. Ainda assim, como a série histórica reúne poucos episódios desse tipo, a tendência continua estatisticamente frágil, embora esteja alinhada ao que modelos climáticos vêm projetando há mais de uma década. Hoje, por exemplo, alguns modelos de instituições americanas indicam a possibilidade de um El Niño forte ou até de um ‘super El Niño’ — quando o aquecimento ultrapassa 2 °C — até o fim deste ano e o começo do próximo. Já parte dos modelos europeus projeta um cenário ainda mais intenso. As projeções mais recentes da NOAA mostram que a chance de um fenômeno muito forte aumentou nas últimas semanas. Em abril, a probabilidade de o aquecimento do Pacífico ultrapassar 2 °C era de 25%. Agora em maio, subiu para 37%. Mas os próprios modelos ainda indicam um cenário de grande incerteza. Nenhuma das categorias avaliadas pela NOAA — fraco, moderado, forte ou muito forte — supera 37% de probabilidade neste momento. Na prática, isso significa que ainda não existe um cenário claramente dominante para a intensidade do fenômeno. Segundo o último boletim da agência americana, os episódios mais intensos já registrados costumam apresentar um forte acoplamento entre oceano e atmosfera durante o verão do Hemisfério Norte, quando a atmosfera passa a responder de forma mais consistente ao aquecimento das águas do Pacífico. Esse comportamento ainda não foi observado em 2026, e a NOAA afirma que ainda não é possível saber se ele irá se consolidar nos próximos meses. A expectativa dos cientistas é que as projeções ganhem mais precisão a partir de junho, quando a chamada “barreira de previsibilidade” da primavera do Hemisfério Norte começa a perder força. As águas invadem a Avenida Guaíba e o calçadão da Praça Araguaia em razão das fortes chuvas e do vento sul na região do Guaíba, no bairro Ipanema, na zona sul de Porto Alegre (RS), na segunda-feira, 13 de maio de 2024. DONALDO HADLICH /CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO O que esperar para o Brasil No Brasil, o Cemaden avalia que, se um cenário mais intenso se confirmar, os próximos meses podem repetir parte dos impactos observados durante o El Niño de 2023-2024. No Norte e no Nordeste, a tendência indicada é de redução das chuvas, aumento das temperaturas e agravamento das condições de seca. Já no Sul, os pesquisadores identificam maior propensão a episódios de chuva intensa e persistente, principalmente entre a primavera e o verão. Uma nota técnica recente do órgão afirma que o Rio Grande do Sul aparece como o estado com “sinal mais robusto” de aumento de risco hidrológico. O texto cita possibilidade maior de enchentes, inundações, enxurradas e deslizamentos, especialmente em áreas da Serra Gaúcha, do Planalto Meridional e da região de Porto Alegre. Santa Catarina e Paraná também aparecem com aumento potencial de eventos extremos de chuva, embora com maior variabilidade regional. O documento também relaciona um eventual El Niño intenso ao aumento das ondas de calor em um contexto de aquecimento global. Segundo os pesquisadores, os anos de 2023, 2024 e 2025 já registraram recordes recentes de calor e aumento da frequência de ondas de calor no país. A nota aponta ainda que uma combinação entre seca e temperaturas elevadas pode ampliar o risco de incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal. Nas conclusões, contudo, os pesquisadores reforçam que a análise “não é uma previsão determinística” e deve ser usada para orientar monitoramento, preparação e planejamento antecipado diante de um cenário ainda incerto. "Cada El Niño monta um novo quebra-cabeça sobre o Brasil. Nenhum evento repete exatamente o anterior, mas alguns padrões aparecem com frequência quando olhamos para o passado", acrescenta Ivo. Nova espécie de "fungo zumbi" é descoberta no Brasil

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/05/24/quando-foi-o-ultimo-super-el-nino.ghtml


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